PENSAR NO DIA DE AMANHÃ: Porque conservamos os alimentos?

O sociólogo italiano Girolamo Sineri fez um comentário muito interessante sobre esse tema: “conservar alimentos é ansiedade no estado mais puro”. Mas conservar alimentos é também uma aposta que nós, humanos, fazemos no fato de que realmente vai haver “um dia de amanhã”. O mesmo sociólogo completou: “quem faria geleias se não tivesse ao menos a esperança de viver o bastante para poder prova-las?

Porque acreditamos que há realmente um dia de amanhã – ou principalmente porque queremos sobreviver não só hoje, mas amanhã e depois e depois – não só nós, mas também muitos animais fazem suas provisões em vista de tempos difíceis. Esquilos guardam nozes no outono, formigas levam quantidades imensas de folhas nas suas fazendinhas subterrâneas para produzir seus ‘cogumelos’, abelhas fazem mel e guardam preciosamente a geleia real... E como escreveu o grande compositor mineiro Milton Nascimento em Amor de Índio: “a abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou”...

Não sabemos ao certo a data em que os primeiros humanos começaram a guardar provisões para os períodos de escassez. Segundo o que os arqueólogos encontram nas suas escavações, tudo indica que essa prática começou há milhares de anos. Nas cavernas se guardavam nos lugares mais frescos as carnes que não se consumiam totalmente depois da caçada. Nos locais mais secos, muitas vezes enterradas, sementes e nozes. E essas sementes acabavam germinando ... e de alguma forma mostrando que tanto na natureza quanto na vida “há que morrer para germinar.”

O mais interessante de tudo é perceber que inúmeros produtos que consumimos diariamente apareceram como uma forma de preservação ... ou de algo que “deu errado”. Imaginemos que estamos há uns 10,000 anos e que as primeiras cabras e ovelhas tinham sido domesticadas. Um restante de leite ficou numa jarra de barro, ao calor de uma região subtropical (lembrando que as primeiras civilizações surgiram na região que é hoje a Síria, Iraque, Turquia, Egito ...) e muito provavelmente quando a senhora voltou para buscar o leite para os filhos encontrou algo como uma coalhada. Alguém mais corajoso provou dessa coalhada e viu que era boa e que não provocava dores abdominais nos adultos (todos os adultos na pré-história eram lactose-intolerantes) e percebeu que além de fazer o leite durar mais, tinham agora um produto também para os adultos. Essa mesma coalhada cozida, escorrida e seca se transformou num queijo. Os humanos haviam encontrado uma forma de fazer o leite durar anos sem refrigeração! Frutas recolhidas em plena maturidade começavam a produzir alterações estranhas, que os animais adoravam consumir e que consomem até hoje, como o caso das marulas maduras (Sclerocarya birrea) consumidas na África pelos elefantes. Aliás, muito do que consumimos do reino vegetal nos foi ensinado pelos nossos ‘irmãos menores’, os animais... Quando essas frutas ou seu suco fermentado eram consumidos, além de saborosos, davam uma maravilhosa sensação inebriante, que os nossos ancestres associaram com as divindades. E assim foi inventado o vinho!

Poderíamos passar horas comentando sobre produtos como salames, vinagre, presunto, frutas cristalizadas e secas, geleias, cerveja ... e veríamos que cada um deles é no fundo uma forma de conservar os alimentos. Hoje não precisamos nós mesmos efetuar esses longos e muitas vezes perigosos processos - quantos morreram ao testar as novas criações ... - porque há empresas de todos os portes que fazem isso por nós.

A vida é muito rápida e quase não temos tempo para nada mas deveríamos de vez em quando parar para pensar nesse tipo de coisa: que a cada vez que compramos um pacote de massa, uma lata de molho de tomates, uma caixinha de bolo ou um pote de geleia e os guardamos num armário, estamos de alguma forma dizendo “eu acredito que há um dia de amanhã”.

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Escrito por Sandra Mian, nossa nova colaboradora, engenheira de alimentos pela FEA, Unicamp, com vastos conhecimentos em história, sociologia e antropologia da alimentação e dos espaços do habitar (universo da comida e da roupa). Com mais de 30 anos de experiência, desenvolve trabalhos no Brasil, EUA, Canadá e no México. Atualmente pela a empresa de consultoria B-Ahead Consulting Inc., atua em processos de inovação com metodologias como etnografia em profundidade e Design Thinking. Escreve para a revista CarneTec (Brasil e América Latina), uma publicação especializada na indústria de carnes. Em 2017 e 2018 apresentou trabalhos de investigação no prestigiado Oxford Symposium on Food and Cookery e os artigos referentes a essas investigações publicados pela Prospect Books, UK. Com presença ativa nas mídias sociais, criou um grupo de discussão de temas relacionados à comida e alimentação, hoje com cerca de 1,600 membros. Esse grupo permite à consultora entender os mecanismos do storytelling nas comunicações sobre alimentação e saúde e as relações antropológicas e sociológicas da comida com o ser humano. É membro do Culinary Historians Institute of New York e de grupos como o OSFC, Writing the Kitchen, FOST e outros grupos de discussão sobre temas culturais acerca da alimentação.